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O
povo cearense foi formado pela miscigenação de indígenas catequizados e
aculturados após longa resistência, colonizadores europeus e negros que
viviam como trabalhadores livres ou escravos. O povoamento do
território foi bastante influenciado pelo fenômeno natural da seca. Era
uma sociedade rural baseada, sobretudo na pecuária, principalmente no
sertão, e na agricultura, em especial nas serras e vales. A elite
latifundiária, mediante o poder econômico e complexas relações de
parentesco e afilhadagem, possuía controle de quase todos os aspectos
da vida social. Os "coronéis" mantinham em suas propriedades muitos
dependentes que lhes prestavam serviços ou entregavam parte de sua
produção em troca da posse de um lote de terra, além de trabalhadores
assalariados. O desenvolvimento independente do Ceará aconteceu
apenas depois de sua desagregação de Pernambuco em 1799, e sua história
foi marcada por lutas políticas e movimentos armados. Essa
instabilidade se prolongou durante o Império e a Primeira República,
normalizando-se depois da reconstitucionalização do País em 1945.
Ceará Pré-Colonial O
Ceará era habitado ancestralmente por indígenas dos troncos Tupi
(Tabajara, Potiguara, Parangaba, Tapeba, entre outros) e Jê (Kariri,
Inhamum, Jucá, Kanindé, Tremembé, entre outros), cujas tribos ainda
hoje denominam vários topônimos no Ceará.[14] Os colonizadores
portugueses chegaram em 1603 através do litoral, mas o povoamento pelos
europeus foi bastante dificultado nas primeiras décadas de colonização,
devido à intensa resistência dos nativos - que destruíram o primeiro
forte edificado para marcar o domínio português e mataram muitos dos
primeiros povoadores - à interveniência de secas e às incursões de
piratas estrangeiros. Os navegadores espanhóis Vicente Yáñez Pinzón
e Diego de Lepe desembarcaram na costa cearense antes da viagem de
Pedro Álvares Cabral ao Brasil.[15] Pinzón chegou a um cabo
identificado como "Porto Formoso", que se acredita ser o Mucuripe, e
Lepe, à barra do rio Ceará, em Fortaleza. Essas descobertas não puderam
ser oficializadas devido ao Tratado de Tordesilhas (1494). As terras
equivalentes à Capitania do Ceará foram doadas a Antônio Cardoso de
Barros, que, porém, não se interessou em colonizá-las. Ficaram assim
entregues à ação de corsários, notadamente franceses, que em 1590
estabeleceram a Feitoria da Ibiapaba, para explorar o âmbar-gris, as
madeiras de lei, a pimenta e o algodão nativo. Os esforços de
povoamento pelos portugueses visavam principalmente a vencer a
resistência indígena e garantir o domínio luso contra estrangeiros.
Ceará Colonial A
primeira tentativa efetiva de colonização ocorreu com Pero Coelho de
Sousa em 1603, que fundou o Forte de São Tiago na Barra do Ceará. Em
1605, porém, sobreveio a primeira seca registrada na história cearense,
fazendo perecer Pero Coelho e sua família. Em 1612 nova expedição foi
enviada como parte dos esforços de reconquista do Maranhão, sob o
comando de Martim Soares Moreno, que funda o Fortim de São Sebastião
também na Barra do Ceará. Ao retornar, em 1621, encontrou o forte
destruído, mas lançou as bases para o início da exploração econômica e
o apaziguamento dos nativos.[ Em 1637 o terreno foi tomado pelos
holandeses, que construíram, na embocadura do riacho Pajeú, o Forte
Schoonenborch e procuraram se estabelecer na região sob forte
hostilidade dos indígenas. Após a sua expulsão em Pernambuco,
entregaram o forte aos portugueses, que, dessa vez contavam com o apoio
dos nativos, restabelecendo o poderio português, rebatizando-o de
Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.[18] Os portugueses continuaram
a colonização do território cearense com intuito de protegê-lo de
invasões de estrangeiros. A influência dos jesuítas foi
determinante, resultando na criação de aldeamentos (Porangaba, Paupina,
Viçosa e outros), muitos deles fortemente militarizados, onde os
indígenas eram concentrados para serem catequizados e assimilados à
cultura lusitana. Tribos tupis aliadas dos portugueses também vieram se
instalar em vilas militarizadas na capitania. Dessas reduções surgiram
às primeiras cidades da capitania, como Aquiraz e Crato. O processo de
aculturação, no entanto, não se deu sem grandes influências de crenças
e produtos nativos. A intensa resistência levou a episódios sangrentos,
destacando-se a Guerra dos Bárbaros, ao longo de várias décadas do
século XVIII, que resultou na fuga dos habitantes da capital Aquiraz,
em 1726, para Fortaleza, que passou a ser a capital. Outras frentes
colonizadoras surgiram com a instalação da pecuária na capitania,
através dos Sertões de Dentro e Sertões de Fora, levas oriundas
respectivamente da Bahia e de Pernambuco. Vilas como Icó, Aracati,
Sobral e outras surgiram do encontro de rotas do gado tangerino, que
era levado até as feiras ou fregueses. Mais tarde o custoso transporte
do gado perdeu importância para a produção da carne de charque que, no
final do século XVIII, se disseminou também para a Região Sul do
Brasil. Nas regiões serranas, houve grande afluxo de pessoas que se
dedicaram à agricultura policultora, o que veio a caracterizá-las pela
maior diversificação da produção e pela estrutura menos latifundiária
que a do sertão. O vale do Cariri assenta-se menos na pecuária e mais
na cultura da cana-de-açúcar, propiciando a entrada de maiores levas de
escravos africanos. O litoral, refúgio de muitos indígenas e negros
livres ou fugitivos, povoou-se de vários vilarejos de pescadores.
As
principais vilas da capitania da época charqueana eram Aracati, Crato,
Icó, e Sobral. A que mais ganhou destaque foi Aracati, devido ao
comércio de couro e carne de charque. Entre os anos de 1750 a 1800,
Aracati viveu seu apogeu, mas com uma grande seca na região entre os
anos de 1790 até 1793, os rebanhos bovinos morreram e a produção de
charque transferiu-se para o Rio Grande do Sul, que assumiu a posição
de abastecedor principal das outras regiões.
Capitania do Siará Grande Em
1799 o Ceará adquiriu independência em relação à Pernambuco, e Bernardo
Manuel de Vasconcelos foi nomeado seu primeiro governador, sendo o
responsável pelo início da urbanização de Fortaleza. No final do século
XVIII, especialmente com a Guerra de Independência norte-americana, o
algodão foi tomando relevante papel na pauta de exportações do Ceará.
Com o declínio do charque, cuja distribuição era centrada em Aracati,
Fortaleza se tornou a principal cidade cearense devido à sua condição
de destino dos produtos agrícolas cultivados nas diversas serras que se
elevam nas vizinhanças do município. Em 1812 foi nomeado governador
do Ceará o português Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire, o qual
reuniu os literatos no palácio do governo e deu incentivo às artes e à
urbanização da capital por meio dos projetos de Silva Paulet. No começo
do século XIX o Ceará passou por movimentos rebeldes, como a República
do Crato, em 1813, e também influências da Revolução Pernambucana de
1817, movimentos de cunho republicano-liberal liderados pela família
cratense dos Alencar. Tais movimentos foram reprimidos com dureza pelo
governador provincial do Ceará, Inácio de Sampaio.
Ceará no Império Em
1825 o Ceará tomou parte na Confederação do Equador, com o liberal
Tristão Gonçalves aplicando um golpe e tornando-se chefe do governo. A
Confederação foi frustrada pela forças imperiais, e Tristão morreu
durante os combates contra as forças legalistas do Império. O ciclo de
conflitos terminou com a Insurreição de Pinto Madeira, "coronel" de
Jardim, que visava ao retorno da monarquia absolutista e representava
interesses regionais opostos aos da cidade do Crato, de inspiração
marcantemente liberal. Em meados de 1860, devido à Guerra de
Secessão norte-americana, houve um surto de crescimento da produção do
algodão. Tal florescimento não durou muito tempo, mas deu grande
impulso à modernização da infra-estrutura da Província como exemplo a
Estrada de Ferro de Baturité, inaugurada em 1873. Em 1877, tem início a
chamada Grande Seca de 1877-1879, um dos mais severos períodos de seca
prolongada da história cearense, levando à morte milhares de pessoas e
acarretando emigração maciça de retirantes. Fortaleza recebeu uma
população de fugitivos da seca quatro vezes maior que a sua própria. Logo após, a produção da borracha explode na Amazônia, e muitos cearenses vítimas da seca migram para esta região. A
gravidade dessa estiagem chamou a atenção do governo central e mesmo de
cientistas, havendo então a produção de textos científicos e propostas
de melhoramento da situação da população cearense,[26] cuja maior parte
não foi posta em prática ou se relevou ineficaz. Por outro lado, houve
um aceleramento nas obras do Açude do Cedro, em Quixadá, o primeiro do
Nordeste, que só ficou pronto em 1906.[27] A Grande Seca e as estiagens
seguintes impulsionaram o surgimento da indústria da seca e geraram uma
tradição migratória no estado.[28] Entre 1869 e 1900, 300 mil cearenses
abandonaram sua terra, 85% deles indo para a Amazônia. Anos antes da
proclamação da República notabilizou-se a campanha abolicionista no
Ceará, que logrou abolir a escravidão no estado em 25 de março de 1884,
quatro anos antes da Lei Áurea. O movimento contou com a participação
de várias sociedades libertárias, inclusive a maçonaria, mas o maior
destaque ficou com Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar,
jangadeiro que impulsionou o abolicionismo ao comandar seus
companheiros, em 1881, numa total recusa a transportar escravos para
dentro ou fora da província.[9] A primeira cidade brasileira a abolir a
escravatura foi Acarape, atual Redenção, em 1º de janeiro de 1883.
Devido a isso, o Ceará recebeu a alcunha de Terra da Luz, de início por
José do Patrocínio. A escravidão, que jamais fora dominante no estado,
estava praticamente extinta nos anos de 1880, de forma que não houve
resistência à abolição mesmo por parte da elite agrícola.
Primeira República e Estado Novo No
início da Primeira República, apesar das estiagens que assolaram o
Ceará, Fortaleza continuou a desenvolver-se econômica e politicamente,
ao contrário do resto do estado. Ocorre nas primeiras décadas do século
XX um afluxo de imigrantes, embora pequeno em relação ao de outras
regiões, consistindo principalmente de portugueses e sírio-libaneses.
Os descendentes destes, em particular, ganharam grande destaque no
comércio, como mascates, e, futuramente, na política cearenses. Começou
a ganhar destaque a atividade dos cangaceiros, que, agindo em grupos
organizados e promovendo saques em cidades e propriedades rurais,
desestabilizaram o interior do Nordeste por décadas. A forte
religiosidade popular e a grande miséria estimulavam uma profusão de
líderes messiânicos e formas de fanatismo religioso. O cearense Antônio
Conselheiro, de Quixeramobim, chegou a formar, na Bahia, o arraial de
Canudos, cuja forte atração populacional e ideológica, contrária aos
interesses da elite fundiária, deflagrou a Guerra de Canudos.[32] Isso,
porém, não extinguiu a influência dos líderes religiosos. Entre 1896
e 1912, a hegemonia política foi monoliticamente concentrada nas mãos
do comendador Nogueira Accioly e de sua família, que estabeleceram uma
poderosa oligarquia que comandava a maior parte dos escalões do poder
estadual. Em 1912, Accioly apontara como seu candidato Domingos
Carneiro, contra Franco Rabelo, representante da política do
salvacionismo do presidente Hermes da Fonseca, gerando uma conturbada
campanha eleitoral. A dura repressão policial a uma passeata de
crianças em favor de Rabelo, que causou a morte de algumas delas e
feriram outras, desencadeou uma revolta de três dias da população
fortalezense, forçando o governador Accioly a renunciar, evento
conhecido como Sedição de Fortaleza. Franco Rabelo passou a governar o
Ceará.[33] A Rede de Viação Cearense surgiu em 1909 e foi federalizada em 1915 para ajudar no combate a seca. No
fim do século XIX o carismático Padre Cícero passou a atrair milhares
de sertanejos para um pequeno distrito do Crato, que se tornaria
Juazeiro do Norte em 1911, persuadidos pela sua fama de milagreiro,
atribuída à suposta transformação em sangue da hóstia recebida do padre
pela beata Maria de Araújo. Mesmo após a perda de sua ordenação, em
virtude de controvérsias sobre o milagre, o Padre Cícero tornou-se cada
vez mais conhecido e, apesar de seu caráter messiânico, foi hábil em
evitar grandes conflitos com a elite local, tornando-se ele próprio um
poderoso chefe político. Em 1914 irrompeu a Sedição de Juazeiro, opondo
o governador interventor Franco Rabelo e o Padre Cícero, que havia
conquistado os postos de prefeito de Juazeiro do Norte e
vice-governador.[34] Rabelo iniciou uma perseguição ao líder religioso.
Com isso, liderados por Floro Bartolomeu, os sertanejos fiéis ao Padim
Ciço reuniram-se para lutar contra as tropas estaduais, conseguindo
derrotá-las em sua cidade e fazê-las recuar até Fortaleza, onde,
vencendo, destituíram o governador. Estabeleceu-se um relativo
equilíbrio entre as oligarquias cearenses, que durou até a Revolução de
30. Sobreviventes do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, um dos eventos mais cruéis da história cearense. Em
1915 o Ceará sofreu com uma gravíssima seca levando a novo êxodo da
população cearense para a Amazônia, região que, devido às
intermitentes, mas significativa emigração recebeu grande afluxo e
influência de cearenses. A gravidade da seca inspirou a escritora
Rachel de Queiroz em sua famosa obra O Quinze. O sertão sofreu mais uma
estiagem em 1932, e o governo estadual não pôde dispor mais da Amazônia
como refúgio para os flagelados. Diante disso, foram criados os Currais
do Governo, campos de concentração para os retirantes. A instabilidade
política e social foi crescendo no Estado. Nos anos 1930, surgiu no
Crato o movimento messiânico do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto,
liderado pelo beato José Lourenço.[35] Igualitária e agrária, a
comunidade do Caldeirão perseguia a auto-suficiência, passando a ser
vista pelo governo e pelos fazendeiros poderosos da região como uma má
influência. Em 1937 o Caldeirão foi invadido e alvo de bombardeio
aéreo, resultando no massacre de aproximadamente 400 indivíduos. Após
a Revolução de 30, o Ceará passou a ser governado por interventores do
Governo Federal.[36] Ascenderam duas organizações políticas que
dominaram o cenário estadual: a Legião Cearense do Trabalho, com nítida
influência fascista, e a Liga Eleitoral Católica, fortemente religiosa,
representante da elite tradicional e de grande apelo popular. Nos anos
1940 mais uma seca (1943) assolou o Ceará, e, com a Segunda Guerra
Mundial e os Acordos de Washington, o governo de Getúlio Vargas incluiu
o Ceará no seu projeto político. A instalação de uma base
norte-americana em Fortaleza trouxe ideais democráticos e antifascistas
que passaram a ser defendidos em várias manifestações. Sob uma forte
propaganda governamental de migração (SEMTA), cerca de 30 mil cearenses
tornaram-se Soldados da Borracha, produzindo esse produto na Amazônia
para abastecer os exércitos aliados.[37]
República Nova A
República Nova no Ceará tem início com a nomeação sucessiva de seis
interventores até as eleições de 1947, seguindo-se a eleição de
Faustino de Albuquerque pela UDN. Durante seu governo, nas eleições
presidenciais de 1950, o candidato udenista Eduardo Gomes obteve a
maior votação, e Getúlio Vargas ficou na 3ª colocação no estado.[38]
Para a direção do governo estadual é eleito Raul Barbosa. Durante seu
governo houve a instalação do Banco do Nordeste do Brasil (1952) em
Fortaleza. No mesmo ano o governo federal inaugurou oficialmente o
Porto do Mucuripe, em cujo entorno foram instaladas várias usinas
termoelétricas. Durante a década de 1950 surgiram ou se consolidaram
vários dos maiores grupos econômicos do Ceará, como Deib Otoch, J.
Macêdo, M. Dias Branco, Edson Queiroz e Jereissati. Paulo Sarasate foi
o terceiro governador eleito no período. Ainda nessa década tem início
uma nova onda migratória para vários estados e regiões. Entre as
décadas de 1950 e 1960, a população cearense passou de 5,1% para 4,5%
do total da população brasileira.[39] Em 1958 foi eleito Parsifal
Barroso que teve a ajuda do governo federal para combater as mazelas
decorrentes da seca daquele ano, sendo a principal obra o Açude Orós,
inaugurado em 1961. Em Fortaleza o Grupo Severiano Ribeiro inaugurou o
Cine São Luis. Em 1962, foi criado o Banco do Estado do Ceará (BEC).[40] Em
1963 Virgílio Távora foi eleito governador do Ceará, exercendo o
mandato até 1966, mesmo com o surgimento da ditadura militar em 1964.
Seu governo foi marcado pela criação do "PLAMEG I" - Plano de Metas do
Governo - que visou à modernização da estrutura do estado com a
ampliação do porto do Mucuripe e a transmissão da energia de Paulo
Afonso para a capital.[41] Foram criados ou instalados, também, o
Distrito Industrial de Maracanaú, a CODEC e a Companhia DOCAS do Ceará.
Com o AI-2, Virgílio aderiu à ARENA, e seu vice Figueiredo Correia ao
MDB.
Governo militar Plácido Castelo foi eleito pela
Assembléia Legislativa em 1966. Durante seu governo houve perseguição
política a deputados e várias manifestações, acarretando a prisão e
tortura de estudantes e trabalhadores, assim como atentados a bomba em
Fortaleza.[42] Foi criado o Banco de Desenvolvimento do Ceará (BANDECE)
e pavimentada a rodovia CE-060, a "estrada do algodão". Também tiveram
início as obras do estádio Castelão. Durante o governo de César Cals
(1971-1975) se sucedeu o auge da repressão militar. Vários cearenses de
esquerda estiveram envolvidos na Guerrilha do Araguaia.[43] Cals
procurou governar tecnocraticamente, formando sua própria facção
política e rompendo com Virgílio Távora. Seu sucessor, Adauto Bezerra
(mandato de 1975 a 1978) não acontecem grandes mudanças. Adauto
volta-se politicamente para o interior com a criação de uma secretaria
de assuntos municipais. Renuncia seu mandato para se eleger deputado
federal. O vice-governador Waldemar Alcântara toma posse e termina o
mandato. Virgilio Távora retorna ao governo em 1979, sendo o último
eleito indiretamente, e resgata seu primeiro governo com a criação do
PLAMEG II. Estabelece o Fundo de Desenvolvimento Industrial para
complementar o sistema de incentivos regionais à indústria,
impulsionando uma industrialização muito concentrada na Região
Metropolitana de Fortaleza.[44] Criou-se o PROMOVALE (projetos de
irrigação), e sua esposa, Luiza Távora, programou projetos sociais como
a Central de Artesanato do Ceará. Seu governo foi marcado pela
ausência, quase que total, de oposição na Assembléia, nomeações
aproximadas de 16.000 pessoas para cargos públicos e várias greves. Em
1983, Gonzaga Mota foi eleito pelo voto popular, rompendo com os
coronéis anteriores para criar seu próprio grupo político. Seu
rompimento rendeu-lhe ataques do regime militar com a suspensão de
verbas federais.
Nova República A hegemonia de Tasso Jereissati na política cearense durou duas décadas. A
Nova República começou no Ceará com a eleição de Maria Luiza para o
cargo de prefeita de Fortaleza em 1985. Foi a primeira prefeita de
capital estadual eleita pelo Partido dos Trabalhadores e a primeira
mulher a ser eleita para esse cargo após o regime militar. A
insatisfação com a política praticada durante a ditadura militar e o
movimento de redemocratização impulsionaram as transformações no poder
político, com a decadência da hegemonia tradicional do coronelismo. Gonzaga
Mota deixou o governo com pagamentos atrasados ao funcionalismo e
descontrole nas contas públicas,[46] mas seu candidato, o empresário
Tasso Jereissati, conseguiu se eleger com a promessa de modernizar a
administração pública e as finanças, afastando-se do clientelismo dos
governos anteriores e desenvolvendo a economia estadual. A nova gestão
passou a se autodenominar "Governo das Mudanças".[47] Nas duas décadas
seguintes, Jereissati e seus aliados passaram a deter a hegemonia
política no Estado, e rapidamente perdem a aliança com partidos mais à
esquerda.[45] Ciro Gomes, então prefeito de Fortaleza, se candidatou
e foi eleito em 1990 para o cargo de governador, apoiado por Tasso. Os
"Governos das Mudanças" priorizaram o aumento dos investimentos
públicos e privados em infra-estrutura e nos setores industrial e de
serviços, enquanto o agropecuário permanece à margem. Politicamente, há
uma relativa diminuição de poder dos "coronéis", com ampliação do poder
do grande empresariado. O saneamento das contas estaduais - atingido,
em parte, pela diminuição das despesas com o funcionalismo público
através de demissões e achatamentos salariais - garantiu superávits
entre 1988 e 1994, mas com a consolidação do Plano Real volta-se a uma
predominância de déficits.[46] Tasso foi eleito novamente em 1994 e
reeleito em 1998, concentrando os esforços governamentais na construção
e reforma de grandes obras, como o Porto do Pecem, o novo Aeroporto
Internacional de Fortaleza e o Açude Castanhão. O terceiro "Governo das
Mudanças" (1994-1997) se caracterizou pela privatização de empresas
estatais e extinção de órgãos e pelo seguimento de políticas de cunho
neoliberal, com enxugamento da administração, racionalização de
investimentos, aumento de taxas de contribuição da aposentadoria,
etc.[46] Lúcio Alcântara, eleito com o apoio de Tasso, continuou, em
linhas gerais, o modelo político anterior, mas não recebeu apoio do
próprio partido e não conseguiu se reeleger em 2006, rompendo com o
PSDB e posteriormente mudando para o Partido da República. Cid Gomes,
do PSB e ex-prefeito de Sobral, alcançou o cargo de Governador, pondo
fim à longa hegemonia do PSDB no Estado e sinalizando um movimento rumo
à antiga oposição na política estadual, já demonstrado pela vitória de
Luizianne Lins, do PT, na capital, que se elegeu em 2004 mesmo sem
apoio real do partido, o qual, devido às alianças partidárias
nacionais, apoiou o candidato Inácio Arruda.[48] Em 2008, Luizianne
Lins foi reeleita. O Estado se beneficiou também da guerra fiscal,
que então se iniciava, o que, somada à mão-de-obra barata, atraiu
várias indústrias, as quais se concentraram em algumas poucas cidades.
O crescimento médio do PIB, de 4,6%, foi superior à média nacional e
nordestina nos anos 1990, continuando a tendência iniciada na década de
1970.[49] As ações do governo, aliado aos esforços do empresariado
local, e os incentivos de instituições de grande importância na
história econômica recente do Ceará, como o BNB e a Sudene, foram
determinantes para tal desempenho. O forró eletrônico se popularizou
na década de 1990, e o Ceará começou a despontar, seguindo a tendência
do litoral nordestino, como grande pólo de turismo. Ao longo dessa
década, com ações como o Programa de Saúde da Família (PSF), o Estado
também realizou grandes avanços na redução da mortalidade infantil. A
migração em direção a Fortaleza segue forte, tendo em vista o
persistente atraso do interior em comparação com o forte crescimento da
capital.[50] A segurança pública tornou-se muito mais problemática
entre 1990 e 2003, com a taxa de homicídios subindo de 8,86 para 20,15
por 100 mil habitantes.[51] Apesar de vários avanços na saúde e
educação básicas e do crescimento econômico estável, a chamada Era
Tasso não alterou a estrutura socioeconômica problemática do Ceará, em
especial a concentração de renda,[45] que piorou entre 1991 e 2000,[52]
a má distribuição fundiária e a enorme disparidade regional (sobretudo
entre a capital e o interior). Em 1999, segundo o Banco Mundial, metade
dos cearenses viviam abaixo da linha de pobreza.[46] No início do
século XXI, consolidou-se a tendência de queda na tradicional emigração
de cearenses, que, no período 2001-2006, reverte-se para um saldo
positivo de 38,3 mil pessoas, o que se atribui à melhoria das condições
de vida e à maior estabilidade proporcionada por programas sociais, que
permitiram a fixação do pobre em sua terra e o retorno de parte dos
emigrantes.
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